domingo, 6 de dezembro de 2015

Trail S. Silvestre

Trail S. Silvestre Ao terminar a primeira (e praticamente única) subida, a respiração está descontrolada, ligeiras dores nas costas atenuam-se com a diminuição do ritmo que um engarrafamento pontual provoca. Oportunidade para olhar com mais atenção ao que me rodeia. Centenas (serão milhares?) de outros corredores, com expressões díspares, ainda que em todas o esforço seja um fator comum. As últimas escadas para o miradouro de S. silvestre (adequado) trazem os primeiros fotógrafos – e momentaneamente o trail deixa de ser solitário. A vista é compensadora – o rio lima visto de cima está envolto em nevoeiro, um quadro em movimento. Alcançado o ponto mais alto do percurso, começa então a corrida: daqui para a frente, será sempre em passo de corrida até ao final. Dois ou três momentos marcam um trail (ou o meu trail), dois ou três momentos em que o corpo pede para parar; pode trazer-se para a equação a preparação física, que terá obviamente influência, pode falar-se do percurso, da forma como se gere o ritmo ao longo do percurso, mas um trail (qualquer corrida, mas especialmente um trial) depende maioritariamente do diálogo que temos durante o mesmo. Diálogo connosco. Esquizofrenias à parte, lugares comuns ultrapassados, particularmente quando estamos sozinhos num trial esse diálogo é inevitável. E enriquecedor, porque o ambiente em que acontece faz com que o assunto do mesmo (ainda que seja precisamente o mesmo de outras “conversas” do dia-a-dia, as que nos ocorrem num fila de supermercado, numa viagem solitária de mota ou a meio de uma reunião) seja necessariamente abordado de outra forma. Cada uma das pessoas que hoje fez este trail terá tido o seu diálogo, com maior ou menor relevância, com maiores ou menores interrupções, mas até ao final da corrida ele estará lá. Depois de ultrapassada uma pequena aldeia, logo após uma sucessão de curvas entre campos de cultivo, surge uma zona plana, ladeada de castanheiros, o chão está literalmente coberto de folhas e ouriços. Nas zonas em que o sol ainda não chegou o tapete em questão é particularmente escorregadio – terão passado cerca de 10 km desde o início. A paisagem é idílica. Não há cansaço que diminua a sua percepção – eventualmente, até pelo contrário. Uma das particularidades de um trail é a de nos permitir “revisitar” lugares ao alcance de todos. Contrariamente ao que acontece numa caminhada, por exemplo no Gerês, em que os cenários idílicos implicam horas de afastamento dos locais de passagem comuns (leia-se servidos de estradas), num trail (ou pelo menos durante boa parte do percurso de um trail) somos levados a passagens, percursos, como lhes queiramos chamar, que por vezes estão afastados apenas alguns metros da estrada principal, em que passamos diariamente. E que de outra forma dificilmente conheceríamos. Faltam apenas algumas centenas de metros para o final do percurso de hoje. Vou numa recta longa, que me permite ver uns 3 ou 4 corredores à minha frente, e um outro atrás (que me acompanha há já alguns km´s). O ritmo de todos é aproximado – as distancias não variam significativamente. Após a última curva, já com o animador de serviço a glorificar cada uma das pessoas que ali terminam a sua conversa, consigo sentir o aproximar do corredor que vinha a perseguir-me. Olho rapidamente pelo ombro e lá está ele, a acelerar para o último folgo. Peço desculpa ao meu parceiro de conversa, com promessas de que havemos de reatar aquele diálogo logo que possível (onde será o próximo trail?). E acelero, conseguindo cortar a meta antes de ser ultrapassado.